sábado, 12 de março de 2011
O HOMEM É UM ANIMAL POLÍTICO
O homem é um animal político, já dizia Aristóteles. Precisamos melhorar a ação política nas lutas da área cultural. Pensei nisso quando vi no Facebook de um amigo a divulgação do movimento que acontece agora, em toda a Argentina, e na terra dele Bigand, Santa Fé. Haverá uma grande movimentação da população nacional no "TODOS A LA ESTACIÓN!!" onde o principal tema é a luta para que volte a funcionar o Sistema Nacional Ferroviário que há 18 anos não serve mais como meio de transporte de passageiros. Em Bigand, o movimento chama "Volvamos al Tren". Esse amigo, o Carlos, também luta contra a crueldade com os animais, é cooperativista, faz a parte social com as crianças no time de futebol da cidade, mas também trabalha e tem sua vida. Sim, os argentinos são bastante politizados.
Há mais de quinze anos e ainda mais nos últimos quatro anos (por de ter assumido a presidência de uma cooperativa de cultura, hoje com mais de sete mil sócios) estou envolvida em discussões e ações sobre cultura, turismo, artes, patrimônio e sobre as suas variadas formas, sobre suas raízes, políticas públicas, incentivos fiscais etc.
Em todos estes anos tenho observado nas reuniões, em importantes debates, que ainda é preciso de maior engajamento político. Precisamos dele para encontrar soluções e conquistar um espaço nas decisões que envolva a cultura, nas decisões que são tomadas neste país e acredito que em qualquer outro. Decisões unilaterais que não respeitam muitas vezes o direito do cidadão. Não respeitam o direito de participar das decisões, esquecendo, ou fingindo esquecer, que estas afetaram o povo, a base, o cidadão que quer participar e principalmente, este cidadão que paga os impostos que sustentam a estrutura do governo.
Mas a culpa é principalmente nossa. Primeiro porque não participamos e segundo porque adotamos o discurso anti-política.
Precisamos doar um pouco mais do nosso tempo, independente da área em que trabalhamos, para defender interesses que são de todos. Precisamos entender nosso papel de cidadão. Se algo está errado é porque nós mesmos temos "preguiça" e sempre uma boa "desculpa" para não participar deste ou daquele movimento. Melhor deixar para reclamar sobre isso nas conversas do sofá da sala, no intervalo de um filme ou novela ou na mesa de bar com os amigos.
No discurso anti-política usamos sempre "não nos envolvemos em política" ou "não gosto de política" ou "política é suja e político é tudo ladrão" ou o pior... “eu sou da cultura, não me envolvo com isso”. Também achamos graça de pessoas que debocham do governo, governo esse que usa o "nosso" dinheiro para comandar.
Como exemplo, temos candidatos em eleições que mais parecem piada e ainda debocham do governo do Brasil. Porém e infelizmente, com a eleição ganha, estes candidatos dizem que a campanha foi assim ou "assado" porque era uma forma de protesto, bla bla bla bla...os filósofos conseguem elaborar um discurso de que essa é a imagem do eleitor brasileiro etc etc etc, pessoas engajadas em movimentos das minorias tentam discursar “que a minoria chegou lá” sempre nivelando por baixo e esquecendo dos bons exemplo, gostando ou não de seus princípios e políticas, como Lula, a Erundina, a Marina Silva e outros. Exemplo de pessoas inteligentes, engajadas, lutadores e dispostos a respeitar e fazer o melhor para o país.
Então porque deixamos que o pior ganhe. E ainda o pior é que os políticos mal intencionados vão somente usar estes "boi de piranha" para continuar com a festa feita com nosso dinheiro. Irão aprovar o que querem e como querem. Porque lá em cima... no governo... não basta boa intenção...tem que ter jogo de cintura, inteligência, paixão e muita articulação pra conseguir algo.
Mas isso também é nossa culpa e precisamos parar de tampar o sol com a peneira. Precisamos começar a diferenciar ética, honestidade e atitudes dignas de um discurso onde tudo pode, tudo é permitido, tudo é direito humano etc. Precisamos ter pulso e ações pontuais e enérgicas. Senão fica no “tudo pode” e aí vira o "samba do afro-descendente com problemas neuro-psiquiátricos". Entendem?
Segundo a Wikpedia, "Política é a arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados. Nos regimes democráticos, a ciência política é a atividade dos cidadãos que se ocupam dos assuntos públicos com seu voto ou com sua militância. A palavra tem origem nos tempos em que os gregos estavam organizados em cidades-estado chamadas "polis", nome do qual se derivaram palavras como "politiké" (política em geral) e "politikós" (dos cidadãos, pertencente aos cidadãos), que estenderam-se ao latim "politicus" e chegaram às línguas européias modernas através do francês "politique" que, em 1265 já era definida nesse idioma como "ciência do governo dos Estados".
Militância não precisa ser partidária, pode ser idealística e suprapartidária (quando para alguns, partido político também é uma coisa ruim). Precisamos nos unir e protestar através de passeatas, abaixo-assinados, reuniões, nossa presença em eventos que se façam necessários, protestar nas nossas redes sociais, protestar com atitudes. Já diz a Bíblia "A fé sem obras é morta"-Tiago 2:14-22. Precisamos de todos da cultura em uníssono. O chavão mais certo que há..."a união faz a força."
Logo que assumi a Cooperativa Cultural Brasileira eu mesma me vi envolvida em várias ações, até mesmo uma audiência pública, onde questionava um projeto do governo que tinham na pauta, mudar os músicos contratados via cooperativa, para uma contratação via carteira assinada. A principio, esta seria uma atitude que beneficiaria o profissional. Mas pela estrutura e problemas que já conhecíamos, pela logística e pela lógica administrativa sabíamos que esta ação só iria precarizar o trabalho do profissional e aos poucos desmantelar o projeto. É o que aconteceu e vem acontecendo. Não tivemos mérito. O mais "organizado", e não o que estava certo, venceu.
Desde antes de Cristo, temos histórias para contar sobre as grandes marchas realizadas para resgatar o poder do povo. Como exemplos: temos o recente movimento que aconteceu no Egito com a derrubada do poder de um ditador com movimentos articulados via Facebook. Em Portugal uma centena de manifestantes em defesa do Metro Mondego, contra a suspensão do projeto de construção. Centenas de ativistas sul-coreanos e de outros países entraram em confronto com a Polícia em Seul, no início da cúpula dos líderes do Grupo dos Vinte (G20). No Brasil, integrantes do movimento Moinhos Vive, ligado a moradores em Porto Alegre, realizaram protesto contra a possível demolição de prédios históricos.
Ainda mais atual temos no Brasil, em São Paulo, recentemente a notícia de que um dos mais tradicionais cinemas de São Paulo, o Cine Belas Artes, teria suas portas fechadas devido a exigências contratuais com o dono do edifício, a notícia pegou de surpresa de diversos cinéfilos que em movimento já organizaram um abaixo assinado on-line - que conta com mais de 20 mil assinaturas além das várias passeatas. Temos os pais e estudantes da ULM – Universidade Livre de Música que lutam, incessantemente, para que não acabe toda uma estrutura já fortalecida que irá prejudicar estudantes que ainda não se formaram. Um movimento bem articulado e já com indícios de grandes vitórias é o “Terceira Via para o debate sobre Direitos Autorais” com relação a discussão dos direitos autorais, lei rouanet, secretaria da música no MINC etc e que propõe novos caminhos de pensamentos e decisões.
O que tudo isso quer dizer? Quer dizer que todos querem participar, querem manter seus costumes ou criar novos. Mas, principalmente, querem ser donos do seu destino. Precisamos é acordar este tão famoso "gigante adormecido" e usar da cultura para a Cultura.
Segundo Arias (2002, p. 103- La cultura. Estrategias Conceptuales para comprender a identidad, la diversidad, la alteridad y la diferencia. Escuela de Antropologia Aplicada UPS-Quito. Ediciones Abya-yala.) ele descreve o conceito de cultura como:
". una construcción específicamente humana que se expresa a través de todos esos universos simbólicos y de sentido socialmente compartidos, que le ha permitido a una sociedad llegar a "ser" todo lo que se ha construido como pueblo y sobre el que se construye un referente discursivo de pertenencia y de diferencia: la identidad"
"La cultura no es algo dado, uma herencia biológica, sino uma construcción social e históricamente situada, em consecuencia es um producto histórico concreto, uma construcción que se inserta em la história y especificamente em la história de las inter-acciones que los diversos grupos sociales establecen entre si"
"Cultura é uma expressão da construção humana. A cultura é construída através do diálogo entre as pessoas no dia a dia. Nessa interação social é construído gradativamente símbolos e significados que tem sentido a essas pessoas, e são compartilhados entre elas..(..)O entendimento do significado de cultura subsidiará a compreensão das raízes culturais. Quando nos referimos às raízes culturais estamos nos referindo à sua origem, principio, ou seja, a forma como foi construída a cultura de um povo, o que determina que alguns elementos ou algumas manifestações culturais sejam considerados tipicamente desse povo. ...não se pretende escavar o "passado", mas sim, de se manter viva a história da construção ou da criação da cultura de um povo ou de uma região." {Susie Barreto da Silva. Licenciatura Plena em Educação Artística - Habilitação em música (UEPa) - Especialização em Educação Musical (CBM), Mestrado em Educação(UCA).}
Diante destas afirmações que são resultado de pesquisas sérias, profundas e variadas podemos chegar à conclusão do quão importante é o fato das pessoas se juntarem para participar efetivamente das mudanças do mundo, da cultura local, das decisões políticas, do desenvolvimento.
Concluo este pensamento com a certeza de que precisamos ser mais participativos, pró-ativos, mais engajados, mais politizados na área da Cultura. Ao contrário do que diz o nosso hino "deitado eternamente em berço esplêndido". Se continuarmos deitados, este berço não será tão esplêndido ou pior, poderá não ser nosso, teremos que alugar.
Vamos à luta. À nossa luta. Mais cidadão e menos "reclamão".
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Cooperativa é....
uma associação autônoma de pessoas que se unem, voluntariamente, para satisfazer aspirações e necessidades econômicas, sociais e culturais comuns, por meio de uma empresa de propriedade coletiva e democraticamente gerida. (Conceito apresentado no Crongresso Centenário da Aliança Cooperativista Internacional em setembro de 1995, em Manchester, Inglaterra)
Cultura é....
o desenvolvimento intelectual do ser humano, são os costumes e crenças de um povo, está ligado com a emoção, o abstrato. De geração em geração a cultura é transmitida. Comida, belas artes (teatro, dança, música etc), arquitetura, línguas, comportamento... a cultura nos dá raízes, nos faz parte.
Cultura e Cooperativismo pode....
ser uma união perfeita onde a classe dos trabalhadores da cultura encontram um apoio e um formato de trabalho que vem de encontro com as necessidades do setor. Cooperativas de Cultura é hoje o melhor formato para a organização das variadas manifestações e coletivos que existem em todo o mundo.

Gostei muito do que você escreveu
ResponderExcluirParabens
Oi gostei muito do seu blog e do que você escreveu, principalmente por ter usado uma citação de um artigo meu, obrigada.
ResponderExcluirhttp://susablogarteecultura.blogspot.com/